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Há mais ou menos uma semana:
eu estava na casa de minha mãe, em Conquista, era um dia cinza, chuvoso e frio, de começo de inverno. Eu e ela, minha mãe, tínhamos brigado por algum motivo desconhecido, eu estava chateada mas não queria mais discutir, sabia que naquele momento nada se resolveria. Então eu saía, talvez pra casa de meu pai, duas ruas abaixo. O caminho da porta de casa até o portão verde, passando pelo jardim, estava elameado, muito, como jamais esteve. Eu estranhava e tinha medo de escorregar. Abria o portão e, assim que fechava, o da casa da frente - que também é verde, também é número 10 e a dona tem o mesmo nome da minha mãe - se abria. Um boxer grande e zangado saía de lá e vinha correndo pra cima de mim. Desesperada eu tentava subir no portão, que agora tinha um alambrado. O cão não me alcançava, mas começava a subir também até que a minha vizinha o chamava. Ele descia, ela me convencia que ele era manso, eu tentava tocar nele mas tinha medo. Entrava em casa de volta.
O caminho de cimento continuava elameado, como todo o gramado. Eu chegava na janela da esquerda, via minha mãe, minha tia e minha prima lá dentro, na penumbra de fim de tarde. Eu estava chorando, não sei por que, mas ninguém me dava atenção. Então eu contornava a casa para pedir atenção e carinho ao meu cachorro, que com certeza me daria. Antes de chegar no quintal, na porta da cozinha, ele estava deitado, pronto pra me consolar. Mas ele era outro. Era ele, mas em outro corpo. Então eu lembrava que ele tinha morrido e minha mãe tinha trocado [o espírito, o cerébro, a alma, não sei] pro corpo de outro cão, lindo, macio, branco com manchas marrom-avermelhado. Ele tinha o mesmo comportamento alegre e compreensivo do atual.
Daí não sei como eu fui parar numa aula de inglês, da escola que eu estudava lá em Conquista, mas era na casa de uma pessoa, um ambiente meio azulado. Edi e Tici estavam comigo, numa sala com pessoas estranhas e conhecidas sabe-se lá de onde, eu lutava contra o sono. Quando a aula acabava, Edi ia levar Tici pro trabalho, ela já estava atrasada. Eu saía com as outras pessoas e agora estávamos na Princesa Leopoldina, Graça. Eu queria subir até a Euclides da Cunha pra ir pra casa, mas os outros queriam descer a ladeira, ir por um caminho que eu não conhecia. Eu ia. Depois de muito descer ladeiras e escadas, passar no meio de mercados com cangas, tapeçarias e bugingangas eu entendia que estávamos indo, na verdade, para a Cidade Baixa. Ficava chateada, porque de lá ia ser ruim de voltar pra casa. Aí me desgarrava do bando junto com uma amiga que ora era Aninha, ora era Tici, ora era Ju. Começávamos a voltar, subindo, mas nos perdíamos tanto! Passavam várias paisagens loucas, eu via o Elevador Lacerda, coisas coloridas... Até que, através de uma escada parecida com a de incêndio do A Tarde, chegávamos à casa de um bróder. Estávamos subindo e de repente era o apartamento de uma cara que dormia no sofá, embrulhado num lençol, com a tv ligada. Continuávamos subindo e no segundo andar era a casa dele de novo, com o mesminho cenário, só que ele havia se mexido e víamos um careca só de shorts, óculos e lençol. No terceiro andar da casa dele a escada mudava, ficava com uma disposição de degraus difícil de seguir [não sei explicar, degraus no canto, no alto...], tinha pedacinhos de gelo nela, e a minha amiga que não lembro quem era nesse momento, queria subir. Me dizia: é um hotel de luxo aqui em cima! custa x [lembro ser um valor absurdo, tipo 30 mil]. E eu via uma janela e palmeiras com um pô-do-sol tropical lá fora. Mas falava não, é a casa do cara, vamos voltar, vem! e puxava ela. Descíamos de volta ao segundo andar, onde careca de óculos já estava acordado. Explicávamos a situação a ele, que estávamos querendo voltar pra casa, mas não conseguíamos. Ele nos dizia que era porque não estávamos pensando na coisa certa. Ahn? é, vocês têm que pensar na coisa certa. Certo, e comofas, seu careca? Ele nos levou até a cozinha de sua casa, onde estava sua mãe. Eu via que os armários tinham paredes dentro das portas, tipo portas que fechavam numa parede. Só que quando ele queria pegar uma coisa lá dentro ele pegava, porque ele pensava na coisa certa. Aí que eu entendia o que ele queria dizer! Então o careca, agora com camisa, nos levava até a geladeira cheia e mandava a gente entrar lá. Não exatamente entraaar, mas ficar em pé dentro da porta da geladeira. A gente entrava, eu dava a mão à minha amiga para que não nos perdêssemos na viagem. Ele conseguia fechar a parte próxima da dobradiça da porta, onde eu estava, porque eu pensava a coisa certa, mas minha amiga não. Eu incentivava ela, vamos, pense na coisa certa, e o careca conseguia fechar a porta da geladeira. Eu sentia minhas costas entrando numa parede, nossas mãos quase se soltavam, mas não. Aí depois estávamos como que deitadas no vazio, de mãos dadas, com as pernas pra cima [era a regra] e no teto [que teto?] passavam imagens, projeções suaves, flores, folhas... E então estávamos deitadas na cama da casa onde funcionava o curso de inglês! Conseguimos. Eu levantava e reconhecia os objetos que havia visto mais cedo: caixinhas, quadros, um pequeno altar duma santa ou de Iemanjá.
Apareciam as pessoas da casa, a empregada tinha um bebê muito pequeno, eu dizia que ele parecia um boneco, acho que era um boneco. Eu pensava que ainda não tinha conseguido chegar em casa, que queria ir embora. Via pela janela uma paisagem de mar, Ladeira da Barra...
Acordei.

Contando tudo isso pra Ugo lembramos de outro sonho que tive em que um frigobar era um lugar mágico, como a geladeira desse último. Por que será? Conto esse em outro momento.

Dedico este post à minha patota da facom, que sempre se diverte com meus sonhos.

3 comentarios:

Luigi dijo...

Que sonho lindo, maria. Como um conto de fadas. Pq será que sempre têmos medo de perder o caminho de volta pra casa?

Nina Neves dijo...

Breno Fernandes, e-mail
O seu blogue nao deixou eu comentar lá, entao comento cá: de alguma forma, você sonhou meio que a sua vida inteira ali. Ugo nao aparece, mas aparece, o apartamento de dois andares dele, essa forma oracular do careca... Eu diria que é um modo muito louco de revival. Fosse isso trecho de um livro no qual o personagem tem essas visoes antes de morrer -- o clichê da vida diante dos olhos, mas em ediçao psicodélica e surreal como essa -- iria pros meus favoritos! :)

Ugo Sangiorgi dijo...

Além disso, repare que o sonho começa normal e vai ficando cada vez mais sem sentido, tipo um fractal. é um sonho recursivo. Loucura construída em cima de loucura.

Geladeiras são lugares mágicos para fejaozinho =*