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Achei divertido o comentário que uma colega da disciplina de iluminação fez ontem - ela é mineira de Juiz de fora: Salvador fica engraçada com chuva... fica assim bagunçada.

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Agora de manhã fez um dia de chuva tão bonito que não resisti e fui fotografar - mesmo com centas coisas pra estudar me empurrando no assento dessa cadeira.
Fiquei na porta e na janela de casa.




























Pretensão zero das fotos serem bonitas ou sei lá. São só registro de cenas queridas.
Clicar nas fotos pra vê-las ampliadas.

Mistérios e Belezas do País Vasco

Publicado na coluna Satélite da revista Muito [jornal A Tarde] do dia 12 de outubro de 2008.



Texto e foto: Nina Neves (Labfoto)

O País Vasco, uma das 17 províncias da Espanha – a mais separatista delas –, está localizado no norte e tem paisagens naturais realmente bonitas. Entre os povoados de Bakio e Bermeo, na costa, estão as pequenas ilha e igreja de San Juan de Gaztelugatxe. Nesse caso, o difícil de acreditar é que se tenha construído uma igreja lá em cima: ela está ligada ao continente por uma estreita trilha com 230 degraus de pedra irregular. Em euskera, o primeiro idioma oficial do País Vasco, Gaztelugatxe quer dizer algo como castelo de pedra.

Para chegar até lá se pode ir de carro ou a pé. Fazer a caminhada beirando a estrada não é problema pois os motoristas costumam ser educados. O melhor caminho é sair de Bakio, que está só a 3 km, aproximadamente, da ilha de San Juan.

O sino da igreja pode ser tocado pelos visitantes e a suas badaladas atribuem-se poderes medicinais e mágicos – mas a verdade é que todo o lugar é encantador. Num canto, encontra-se um banheiro tão primitivo que os dejetos caem direto no mar, conduzidos pelo buraco no chão. Há também uma pequena casa equipada com churrasqueira, elemento que não pode faltar em qualquer bom passeio Vasco. Uma ótima idéia é subir com saco de dormir, vinho, violão e petiscos e passar a noite lá. Se for verão, ainda dá pra ir colhendo amoras pelo caminho e depois comer rezando.


Marcelo Camelo: ontem, dia 28, na Concha Acústica do TCA.



Foto: Álvaro Andrade

Eu fui pro show de Marcelo Camelo sem ter ouvido o cd dele (sou/nós). Antes de começar, discuti com meus amigos sobre quem seria o público, minha teoria era que seria o mesmo público dos Loser. Pois o show mal começou e deu pra entender tudo: as pessoas à minha volta sabiam as letras de cor. É bem o fanatismo fiel fidelíssimo típico.

Talvez por não conhecer as músicas, me mantive afastada o bastante pra observar outro tipo de coisa: a disposição dos músicos no palco era diferente, em semi-círculo com o banquinho de Camelo no centro; sem cenário, a luz amarelada compunha um espaço aconchegante pela cor quente; e tudo junto sugeria um clima mais intimista, mais sossegado. Por algumas vezes, o refletor de Camelo ficava apagado e colocava a banda Hurtmold em evidência.

A banda, por sinal, é fantástica, os caras tocam muito, mas é engraçado como os instrumentos de sopro dão um quê do 4 a uma música ou outra. Acredito é que Camelo continua fazendo um som losermanístico, enquanto Amarante despirocou na viagem rocker dele. Mas deixemos o ruivo de lado... O xilofone me chamou atenção, é vez por outra uma resposta doce à voz grave de Camelo.

E foi indo tudo muito bom, tudo muito bem, o público delirando em faixas como Solidão (em que mal se podia ouvir o assovio de tanta gritaria) e Liberdade – que o a baiano tanto abriu nessa noite –, mas foi quando Camelo resolveu tocar Morena que a Concha veio abaixo – e eu comecei a não gostar da história. Foi triste ver a Morena desacompanhada, sem a guitarra puladinha que dá ânimo. E pior ainda ouvir a platéia inteira atropelando Camelo, sem paciência de entrar na versão mais lenta que cabia ao voz-e-violão daquele momento. Aliás, essa impaciência do público era notável nas intros mais longas das músicas, ficava um clima tenso, de “começa logo a letra”. Aliás, eu acredito que o público de Los Hermanos vai aos shows muito mais pra ouvir sua própria voz, pra entrar nesse êxtase coletivo, sair febrilmente feliz porque Camelo ou Amarante disserem “vocês são foda”. E aí realmente não tem jeito, nego não canta junto, curtindo a voz do cara, nego berra.

Camelo ainda tocou mais três composições suas da época dos Loser. Pode ser um erro colocar no repertório músicas da banda já que ele está desenvolvendo um trabalho novo agora, ainda que parecido. A verdade é que o público não é necessariamente o mesmo, Marcelo Camelo sozinho pode abranger um público mais maduro e menos dançante, aí fiquei na dúvida se ele quer isso. E ele também delirou com o coro da platéia, disse coisas como “vocês me emocionam” e fez coração batendo por debaixo da camisa, mas não falou nada dos “uh, Los Hermanos” que pipocavam a todo tempo de um lado e outro da Concha. Considero essa mistura perigosa, ele pode correr o risco de não conseguir se desvincular da banda e ter uma carreira de fato solo.

Camelo fez o primeiro bis anunciado de que já tive notícia: pediu um tempo pra tomar uma cerveja e voltar. Ele é um fofo, as composições novas são deliciosas, mas não devia confiar muito nos gritinhos do público soteropolitano. Até agora não sei se a histeria pós A Outra foi pela felicidade em cantar uma letrinha tão conhecida ou por conta do pedacinho de barriga que Camelo se deixou mostrar ao levantar os braços em agradecimento.

Camelo não frustrou seu público cativo, aqueles que foram esperando ouvir Los Hermanos, no fundo, no fundo. Mas eu, que queria a novidade, saí insatisfeita pelas músicas repetidas e principalmente pela gritaria habitual. Ele podia ter fechado com um “eu (ainda) sou o que vocês são”.

Ouça Marcelo Camelo em: http://www.myspace.com/marcelocamelo



escrevi o texto abaixo na intenção de publicar na coluna Satélite, da revista Muito, mas como já tinha saído um com quase o mesmo tema, ele vem pra cá. :)


Cafés escondidos na Rambla
de Barcelona

Texto: Nina Neves  Fotos: Divulgação e Nina Neves (Labfoto)

Um passeio pela Rambla, uma das ruas de maior atração turística de Barcelona, pode guardar muito mais do que as já esperadas estátuas vivas e o monumento de homenagem a Colombo ao final. No último quarteirão, à esquerda, há um discreto portal que indica o Museu de Cera. Ao passar pelo corredor estreito, típico do bairro Gótico, chega-se ao pátio que dá entrada para o Museu e ao verdadeiro tesouro desse lugar: dois cafés.

O primeiro, Passatge del Temps, tem uma atmosfera completamente desligada da Rambla que está logo ali: é um lugar tranquilo, na penumbra, decorado com origamis gigantes, lustres raros, um quadro de borboletas e algumas estátuas de cera que se fazem de clientes. A idéia é sentar-se, perdendo-se nas dobras do tempo e dos origamis, tomar um café e "picar" um bocadillo de jamón (sanduíche pequeno com presunto curado). Para os que preferem doces, tem sempre cañas (rocambole de massa folhada) recheadas de creme e cobertas por raspas de amêndoas.

Passando para o salão seguinte, o visitante se vê num lugar ainda mais peculiar, o Bosc de les Fades. Como o nome sugere, é um cenário de conto de fadas. A luz baixa contribui com o clima de floresta criado por árvores, cachoeirinhas e seres mágicos. Quem passa muito tempo ali dentro, distraído pela sangria ou cerveja, pode acreditar que está mesmo numa gruta, onde crescem musgos e estalactites por todos os lados. Mas aproveitam mais os clientes que levantam dos bancos de madeira e exploram o lugar ou papeiam no balcão. Depois de algumas horas ali, ninguém vai estranhar se você sair sacudindo o pó de pilimpimpim da roupa.



PASSATGE DEL TEMPS /
EL BOSC DE LES FADES
Ptge. Banca, 5, Barcelona. Tel. 93 317 26 49
Horário de funcionamento: 10:00 a 01:00h.
Finais de semana até as 02:00 h.
METRÔ: L3 verde - Drassanes, saída Rambla
ÔNIBUS: 14 - 18 - 36 - 38 - 57 - 59 - 64 - 91

Hamam - o banho turco



11.06.2008_

Antes que as memórias comecem a se apagar eu preciso escrever, Não posso correr o risco de esperar a inspiração chegar.

Pois então, é que eu fui no banho turco, o Hamam, lá em Marrakech. Lahcen, nosso querido guia, nos explicou antes que o processo consistia em um lugar com várias saunas, umas 4, ligadas através de um corredor, a do fundo mais quente até chegar na da entrada, a mais fria. Ele nos falou da parte masculina, que é o que conhece: os meninos deveriam ficar de cueca, comprar um sabão artesanal e ir para a sala mais quente. A idéia é que os poros abram para que a pele morta saia através de um gomage - uma espécie de esfoliação - que alguém te faz.

Certo, tudo entendido, nos encontramos aqui fora em meia hora. E lá fomos nós pro lado das moças, nós 3, meninas ocidentais e ocidentalizadas. Eu estava confiando no meu francês tosco para fazer qualquer comunicação necessária - afinal ele tinha me servido bem nos dias anteriores.

Não poderia ter fotografado aquele ambiente porque as moças transitavam ali vestindo apenas calcinha e um elástico que prendia os cabelos, mas tentarei descrever. O ar era umidamente pesado por causa das saunas, os azuleijos da entrada eram azuis e cobriam as paredes até o teto, havia um balcão sem ninguém detrás, uma senhora muito velhinha e encurvada debulhava feijões verdes à minha esquerda (lembrando uma senhora que faz a mesma coisa no Garcia, perto do Bradesco). Logo adiante tinha outra velhinha detrás d'uma mesa baixa vendendo os sabonetes (a 2 dirhans* cada) e outras coisas que não identifiquei. Ela estava no limite entre o primeiro salão e uma outra sala menor, entendi que era ali onde as mulheres deixavam seus pertences e também se despiam e vestiam. Tinha bastante gente até, e era um lugar bem iluminado.

Eu fiquei meio atordoada nesse primeiro momento, tentando administrar tantas informações novas, tantos preconceitos querendo vir à tona, cheirando o ar para ver se algo me diria pra sair dali e ainda lidando com a responsabilidade pelas outras duas, já que eu era o canal de comunicação.

Não sei se nos pusemos caras de nojinho ocidental ou de surpresa, mas sei que causamos sensação, me senti muito gringa, todas nos olhavam. Tentei buscar com quem falar, a administradora do negócio, até entender que aquilo ali não era exatamente um negócio. Perguntei à velhinha dos feijões o que devíamos fazer ou algo parecido, ela não me entendeu bem, mas tentou responder, só que o francês dela me era incompreensível. Tentei o contato com outras: nada. O francês delas era árabe. Aí uma mocinha mais ou menos da nossa idade percebeu nossas caras de "como é que faz?" e veio nos ajudar. Explicou que a gente devia deixar nossas coisas ali naquela salinha, pegar um sabão e um balde e entrar; pagaríamos no final. Eu agradeci, ela se despediu. Tinha uma cara fresca e limpa, de quem acaba de tomar um banho dos bons. Já estava vestida, os cabelos molhados presos, saiu.

Deixamos nossas coisas juntas num vão da parede, pegamos nossos sabonetes - eles eram amarronzados, com cheiro daquele sabão de roupas amarelo e molinhos, deviam ter gordura animal... Antes de alcançarmos nossos baldes, veio de lá uma mulher (só de calcinha, como todas) e nos perguntou se queríamos o gomage, que isso só nos custaria 3 dirhans. Nos olhamos. Rapidamente trocamos informações, já não lembro se faladas ou só olhadas, e dissemos que não, obrigada, só queríamos o banho mesmo. Sim, a verdade é que a idéia de ter uma pessoa estranha, naquele lugar raro, nos esfregando o corpo não nos agradou muito. Agora eu vejo que fomos bobas, fresquinhas mesmo, que afinal de contas tanta gente paga muitíssimo mais que 3 dirhans por uma massagem. Mas naquele momento, na falta do guia, nos sentimos inseguras.

Pegamos nossos baldes e entramos no primeiro quarto, demoramos um tico pra entender o processo, que deveríamos ir até o final do corredor, para o quarto mais quente. As meninas não aguentaram o calor e paramos na penúltima sauna. Enchemos nossos baldes de água bem quente e tomamos banho com o sabão artesanal. A moça que o ofereceu o gomage me mandou tirar o sutiã, eu obedeci, claro. No chão dessa sala estavam umas três mulheres deitadas sobre suas esteiras sendo esfregadas vigorosamente por outras mulheres com uma buchinha. Pensamos aliviadas que realmente tinha sido melhor não optar pelo gomage, que já pensou, elas esfregam essas buchas em todo mundo...

E fomos seguindo pelas saunas até terminar nosso hamam. A sensação foi realmebte gostosa, mas me faltou a esfregação pra sentir a limpeza até a alma.

Enquanto nos vestíamos percebi que velhinha do sabão vendia também xampú, condicionador e... A bucha. A bucha não era reaproveitada, podíamos ter comprado as nossas. Como fez falta ter um guia ali!

Na saída, a moça que nos ofereceu o gomage se despediu e disse algo, meio em francês meio em árabe meio em gestual universal, como "vocês são uns pitéis!". hehe

Tomamos um suco de laranja (natural! hmmm) enquanto esperávamos os meninos. Eles saíram metidos com suas peles de pêssego. Me prometi que quando voltar no Marrocos faço um hamam completo.


*1 euro vale aproximadamente 11 dirhans.


Os meninos estão convidados a comentar a experiência deles, se quiserem, claro. :)

A foto que não tirei

03.05.2008_

Sentada no no assento azul do RER de Paris, na minha frente meu anfitrião, amigo de infância, do lado de fora um dia inacreditavelmente ensolarado. Olho pros bancos do outro lado do corredor e vejo uma moça muito bonita no ponto antípoda ao meu. Cabelos cuidadosamente cacheados, argolas grandes, ela fala distraidamente no celular.

Do outro vagão vem um cara esfarrapado, com sacolas plásticas penduradas nas mãos e nos braços e voz de choro, pára ao lado e atrás de onde está sentada a moça. Ele começa o discurso típico de pedintes, faz que limpa lágrimas, fala dos filhos que ninguém acredita que realmente tem.

A moça desliga o telefone e logo apita a chegada de uma mensagem. Eu enquadro os dois num quadro meio torto, mas que serve. Ela dá um sorrisinho de satisfação ao ler o que veio, o mendigo estende a mão. Faço click.

Passando a limpo sentimentos antigos de outro dia

30.04.2008_

Não me sinto pronta pra voltar ao european way of life. Fico querendo me vestir de Marrocos (ou Marrakech) pra ver se volto no tempo, fico querendo não sentir os cheiros daqui, não ver as caras bascas, busco um grãozinho de areia em algum canto do meu corpo e roupas.
Essa sensação de não pertencimento aos lugares em que estou já é velha conhecida. Mas lá no deserto, um lugar tão grande, tão especial, onde não vi bandeiras e cercas fincadas*, me senti dele e ele meu.
O deserto não é deserto. Com o passar das horas aprendi a reconhecer os donos das pegadas na areia, a ter a areia como parte de mim, a tornar meu coração cheio de deserto.

* Esse sentimento veio na ignorância do conflito pelas terras do deserto, mas é justificável, porque a falta de limites e marcas visíveis naquele território dá uma sensação de liberdade que é real, muito real.