Uma historinha

Tinha uns dez minutos que eu estava sentada ao seu lado. Ele fora cordial, embora não tenha sido caloroso. Era um senhor alto, elegante, com aquela idade indefinida que só os negros têm. Puxei assunto falando do tempo, depois do trabalho. Então ele se soltou e começou a contar da vida.
- É, eu trabalho aqui só pra não ficar parado e pra ganhar um trocadinho.
- O senhor já está aposentado?, perguntei.
- Já, minha filha. Comecei a trabalhar ainda menino, com doze anos. Eu trabalhava no almoxarifado da Federal, sabe? Outro dia um colega meu chamou pra fazer parte do coral de lá, que diz que viaja o país todo cantando e se divertindo. Num ganha dinheiro, mas eu tô bem com a aposentadoria. Só não dei sorte no casamento, viu?
Wallace contou do primeiro casamento, que acabara quinze anos atrás. Depois disso, ficou um tempo sozinho, morando com a mãe. Mas sentia falta d'um pescoço macio em que se aninhar. De um cheirinho de mulher ao amanhecer.
Um dia, seu amigo Luís o convidou para ir numa seresta. Uma seresta de caridade, dentro da igreja do bairro, para levantar fundos e terminar sua construção. Porque era o dia em que fazia aniversário, ele foi. Chegou às 11 horas, quando a banda começava a tocar, de camisa nova, estiradinha, e água de de barba perfumando-lhe o rosto liso.
Sentou-se com Luís e tomaram algumas cervejas, observando os casais deslizarem no salão. Quando Luís se levantou para falar com outro colega, revelou uma morena bonita sentada atrás dele, a três mesas de distância.
Wallace deu uma batucada tímida na mesa de latão, olhando de baixo, tentando disfarçar.
- Ela não era aquela coisa linda demais, que chega cansa de olhar. Mas era uma cabôca que atraía assim mesmo, que um homem não podia ignorar. Tinha o cabelo cacheado, comprido assim, descendo pelas costas. Uns olhos escuros, daqueles que a gente tenta entender se é castanho, se é preto. Era uma formosura só num vestido florido. Não digo que foi amor à primeira vista, mas fiquei encantado, querendo ver de perto.
Ele foi no banheiro, passou uma água no rosto e respirou confiante, tomando coragem para falar com a morena.
De volta ao salão, viu por entre as pessoas Luís conversando com ela. O vestido estampado balançava no balanço de quem pondera alguma decisão. Wallace sentou e voltou a observar a movimentação com olhos tristonhos.
Eram duas da manhã quando Luís desistiu da conversa e voltou para a mesa.
- Vamos embora? Ele perguntou.
Wallace aceitou, pensando que já tinha perdido a noite mesmo e não queria voltar muito tarde.
No carro, a caminho para a casa do amigo, disse:
- Mas rapaz, você quis ir logo... Eu ia dizer pra banda cantar meus parabéns.
- E comé que você não me avisa que hoje é seu aniversário? Vamo voltar, então! Faz a volta aí.
- Ah, não. Agora deixa.
E perguntou o que tinha acontecido com a morena. Luís contou que conversou um bocado, mas ela não quis nada com ele.
- Também, o cara foi logo chamando pra ir no apartamento dele, é mole? Ela não quis, claro.
Na semana seguinte, um colega de trabalho de Wallace lhe comentou que soube da sua simpatia pela moça.
- O nome dela é Ana, disse. É minha vizinha. Eu podia fazer a ponte entre vocês dois.
Ele ficou em dúvida, pensando na sua demora do dia da seresta. Então o colega sugeriu:
- Faz assim, ó: eu dou seu telefone pra ela e se ela quiser te liga, tá bom?
Ele concordou.
Era fim de tarde de sexta-feira quando atendeu a ligação.
- Oi, tudo bom? Aqui é Ana, da seresta.
- Oi Ana! Nem achei que você fosse ligar mais, menina.
- Pois é... você é o amigo de Luís, um escurinho, né?
- Escurinho, não! Pode chamar de negão mesmo! Riu-se.
Riu quando falou com a moça e quando me contava.
Marcaram de se encontrar no dia seguinte, numa praça perto da igreja da seresta.
Ele ficou dentro do carro, esperando ela chegar. Ana vinha com um moleque de uns nove anos pela mão. O olhar esperto como o dela. Wallace se preocupou logo: - Mas já vem com filho?
Saiu do carro, o sol o cegou por um segundo. Foi até Ana, sentada meio tensa num banco.
- Oi Ana, eu que sou Wallace, que você falou no telefone.
Ela levantou e falou com ele dando dois beijinhos. Tinha cheiro fresco de praia e planta, tudo junto.
Foram numa sorveteria, Wallace pensava em distrair um pouco o menino. Ana contou que Alexandre era sobrinho dela, que havia levado o garoto por medo de ir sozinha.
- Mas imagine, como um menino de nove anos que saía correndo atrás de qualquer arraia ia poder defender ela? Agora não, que cresceu e ficou um homão. Mas naquela época...
Eles conversaram, Wallace disse que estava interessado em compromisso sério.
- Eu já tinha passado da fase de mulherengo, sabe?
Ela disse que também não queria ficar só de paquera. Mas Wallace voltou para casa desanimado por causa da guarda do menino, o olhar pescando todos os movimentos.
Uns três dias depois ligou para a morena, só pra ver no que dava. Ela atendeu com a voz feliz, de quem está com o coração acelerado. E aí o coração dele, do outro lado da linha, também pulou. Então marcaram de ir numa matinê no dia seguinte. Ana apareceu sem Alexandre. Dessa vez só levava na mão um guaraná, completado pela pipoca de Wallace.
- Eu era vinte anos mais velho que ela e me sentia um menino.
Começaram a namorar firme. Três meses depois casaram-se na igreja da seresta, que já estava construída.
- E lá se vão dez anos, minha filha...
- E como o senhor ainda diz que não teve sorte no casamento?
- Não, isso eu falei do primeiro, que acabou há mais de quinze anos. Esse não é casamento, é namoro até hoje.

[]

para um amigo

[Abraço]
- Quanto tempo
- Foi um ano
- Foram anos
- Vivi mil vidas
- Continuei existindo
- Eu não vou entrar aí com você
- ...
- Vem comigo, vamos, eu te levo
- [olha pra baixo]
- [pisca. e de novo]

-_-

Há mais ou menos uma semana:
eu estava na casa de minha mãe, em Conquista, era um dia cinza, chuvoso e frio, de começo de inverno. Eu e ela, minha mãe, tínhamos brigado por algum motivo desconhecido, eu estava chateada mas não queria mais discutir, sabia que naquele momento nada se resolveria. Então eu saía, talvez pra casa de meu pai, duas ruas abaixo. O caminho da porta de casa até o portão verde, passando pelo jardim, estava elameado, muito, como jamais esteve. Eu estranhava e tinha medo de escorregar. Abria o portão e, assim que fechava, o da casa da frente - que também é verde, também é número 10 e a dona tem o mesmo nome da minha mãe - se abria. Um boxer grande e zangado saía de lá e vinha correndo pra cima de mim. Desesperada eu tentava subir no portão, que agora tinha um alambrado. O cão não me alcançava, mas começava a subir também até que a minha vizinha o chamava. Ele descia, ela me convencia que ele era manso, eu tentava tocar nele mas tinha medo. Entrava em casa de volta.
O caminho de cimento continuava elameado, como todo o gramado. Eu chegava na janela da esquerda, via minha mãe, minha tia e minha prima lá dentro, na penumbra de fim de tarde. Eu estava chorando, não sei por que, mas ninguém me dava atenção. Então eu contornava a casa para pedir atenção e carinho ao meu cachorro, que com certeza me daria. Antes de chegar no quintal, na porta da cozinha, ele estava deitado, pronto pra me consolar. Mas ele era outro. Era ele, mas em outro corpo. Então eu lembrava que ele tinha morrido e minha mãe tinha trocado [o espírito, o cerébro, a alma, não sei] pro corpo de outro cão, lindo, macio, branco com manchas marrom-avermelhado. Ele tinha o mesmo comportamento alegre e compreensivo do atual.
Daí não sei como eu fui parar numa aula de inglês, da escola que eu estudava lá em Conquista, mas era na casa de uma pessoa, um ambiente meio azulado. Edi e Tici estavam comigo, numa sala com pessoas estranhas e conhecidas sabe-se lá de onde, eu lutava contra o sono. Quando a aula acabava, Edi ia levar Tici pro trabalho, ela já estava atrasada. Eu saía com as outras pessoas e agora estávamos na Princesa Leopoldina, Graça. Eu queria subir até a Euclides da Cunha pra ir pra casa, mas os outros queriam descer a ladeira, ir por um caminho que eu não conhecia. Eu ia. Depois de muito descer ladeiras e escadas, passar no meio de mercados com cangas, tapeçarias e bugingangas eu entendia que estávamos indo, na verdade, para a Cidade Baixa. Ficava chateada, porque de lá ia ser ruim de voltar pra casa. Aí me desgarrava do bando junto com uma amiga que ora era Aninha, ora era Tici, ora era Ju. Começávamos a voltar, subindo, mas nos perdíamos tanto! Passavam várias paisagens loucas, eu via o Elevador Lacerda, coisas coloridas... Até que, através de uma escada parecida com a de incêndio do A Tarde, chegávamos à casa de um bróder. Estávamos subindo e de repente era o apartamento de uma cara que dormia no sofá, embrulhado num lençol, com a tv ligada. Continuávamos subindo e no segundo andar era a casa dele de novo, com o mesminho cenário, só que ele havia se mexido e víamos um careca só de shorts, óculos e lençol. No terceiro andar da casa dele a escada mudava, ficava com uma disposição de degraus difícil de seguir [não sei explicar, degraus no canto, no alto...], tinha pedacinhos de gelo nela, e a minha amiga que não lembro quem era nesse momento, queria subir. Me dizia: é um hotel de luxo aqui em cima! custa x [lembro ser um valor absurdo, tipo 30 mil]. E eu via uma janela e palmeiras com um pô-do-sol tropical lá fora. Mas falava não, é a casa do cara, vamos voltar, vem! e puxava ela. Descíamos de volta ao segundo andar, onde careca de óculos já estava acordado. Explicávamos a situação a ele, que estávamos querendo voltar pra casa, mas não conseguíamos. Ele nos dizia que era porque não estávamos pensando na coisa certa. Ahn? é, vocês têm que pensar na coisa certa. Certo, e comofas, seu careca? Ele nos levou até a cozinha de sua casa, onde estava sua mãe. Eu via que os armários tinham paredes dentro das portas, tipo portas que fechavam numa parede. Só que quando ele queria pegar uma coisa lá dentro ele pegava, porque ele pensava na coisa certa. Aí que eu entendia o que ele queria dizer! Então o careca, agora com camisa, nos levava até a geladeira cheia e mandava a gente entrar lá. Não exatamente entraaar, mas ficar em pé dentro da porta da geladeira. A gente entrava, eu dava a mão à minha amiga para que não nos perdêssemos na viagem. Ele conseguia fechar a parte próxima da dobradiça da porta, onde eu estava, porque eu pensava a coisa certa, mas minha amiga não. Eu incentivava ela, vamos, pense na coisa certa, e o careca conseguia fechar a porta da geladeira. Eu sentia minhas costas entrando numa parede, nossas mãos quase se soltavam, mas não. Aí depois estávamos como que deitadas no vazio, de mãos dadas, com as pernas pra cima [era a regra] e no teto [que teto?] passavam imagens, projeções suaves, flores, folhas... E então estávamos deitadas na cama da casa onde funcionava o curso de inglês! Conseguimos. Eu levantava e reconhecia os objetos que havia visto mais cedo: caixinhas, quadros, um pequeno altar duma santa ou de Iemanjá.
Apareciam as pessoas da casa, a empregada tinha um bebê muito pequeno, eu dizia que ele parecia um boneco, acho que era um boneco. Eu pensava que ainda não tinha conseguido chegar em casa, que queria ir embora. Via pela janela uma paisagem de mar, Ladeira da Barra...
Acordei.

Contando tudo isso pra Ugo lembramos de outro sonho que tive em que um frigobar era um lugar mágico, como a geladeira desse último. Por que será? Conto esse em outro momento.

Dedico este post à minha patota da facom, que sempre se diverte com meus sonhos.

daqui do alto eu te vejo

em 15.04.09

Ai ai... tem umas coisas muito engraçadas nessa cidade: vocês já viram a obra do Iguatemi, o shopping? Tá ficando legal, uma fachada bonita, brilhante, polidinha. Numa foto que fica também na fachada uma moça negra lindíssima, toda de branco [seca e penteada]. Afinal, 80% dessa cidade é negra e ninguém é besta de não dizer "venham pra cá também", ainda que qualquer pessoa que já tenha frequentado minimamente o shopping saiba que [como numa pirâmide de quando estudávamos as castas egípicias], cada andar reserva seu espaço a um poder aquisitivo. Mas sim, voltando ao meu caso, sabe de onde eu tô olhando essa fachada tão assepticazinha?:
a) do meu carro vermelho (só uso o espelho pra me pentear dentro do meu crossfox);
b) da minha sacada privada na igreja universal do reino de deus, no outro lado da rua;
c) de dentro de um barbalho/iguatemi às 18:16. Lotado? Nááá. Lento? Mas hein?
Aqui dentro tá todo mundo, preto, branco, pardo, careca, cabeludo, rei, capitão... Ôpa, rei não! Rei não, que os reis estão andando nos carros aqui do meu lado, no ar condicionado que é pra se sentirem menos deslocados. - E antes que reclamem, uns nem tão reis assim, eu sei.
E eu? Eu também quero ser rei, ué, mas que pergunta!, como todo mundo.
Pra quê, né gente, pra quê dar conforto a esse povo? Eles nem saberiam apreciar mesmo, né? Então deixa assim. É bom que fica todo mundo querendo ser rei e vende-se mais carros, mais tênis, mais celulares.
Já pagou o salário dos seguranças esse mês?

Apoteose do Radiohead



Fotos: Ugo Sangiorgi

Depois de muitos anos de espera, o Radiohead finalmente apareceu por terras latino americanas. Em turnê do seu álbum mais recente, In Rainbows, os ingleses deixaram a platéia brasileira extasiada na Praça da Apoteose na última sexta, dia 20.

"Boa nôitchi, nos somos o Radiohead" disse Ed O'Brien, guitarrista e back vocal, depois de tocar a empolgante 15 Step na abertura do show carioca. Nesse momento já deviam estar presentes aproximadamente 25 mil pessoas que lotaram a Praça da Apoteose (aquela mesma do carnaval), distribuídas em maioria na pista mas também nas arquibancadas. Ouvi um amigo dizer ao meu lado que Thom Yorke era pequeno, engraçada a constatação de que os ídolos são caras normais. Thom Yorke era uma cara normal, de jeans e camiseta, com tanta energia que transbordava das suas extremidades: mãos, pés, as pontas dos cabelos lisos, quase faíscas se mexendo de um lado a outro. Aquele do palco era diferente do vocalista reservado e até seco que estamos acostumados a ver nas entrevistas. A mesma energia tinha o público que dançava, cantava, gritava.

Quando There There, a terceira da noite, foi anunciada por Thom Yorke, o coração da platéia - assim como as palmas - pareceu bater em uníssono com os tambores tão característicos da canção. A multidão extasiada cantou em coro a música inteira. Nessa e em outras faixas, Colin Grennwood, baixista, ia até a frente do palco batendo palmas, animando o público numa interação gostosa.

O cenário e a iluminação eram compostos basicamente de três telões - um no fundo do palco e dois nos lados -, fortes refletores e colunas de LED, que pendiam sobre todo o palco como estalactites modernosas. Simples e eficiente. Os LEDs são uma fonte de luz de baixo consumo de energia, seu uso faz parte da postura ecologicamente correta do grupo. Os tubos eram responsáveis pelo quê fantástico da iluminação: as luzes ali dentro mudavam de cores e posição de acordo com a música, mudando também o clima do show. Em Weird Fishes, por exemplo, davam a sensação de que a banda estava sob um oceano, com a luz azulada e pontinhos dourados "boiando" na mesma altura em todos eles. Nos telões, um quebra-cabeças de quatro partes com imagens dos músicos em diversos ângulos, fornecidas pelas dezenas de câmeras espalhadas pelo palco (escondidas atrás das colunas, penduradas sobre os instrumentos e em outros cantos). É bom registrar que toda a parafernália do show foi transportada de navio, também de acordo com a atitude verde da banda.

A imagem de ângulo mais curioso foi também do ápice da interação com o público: quando Thom Yorke sentou no piano para tocar You and Whose Army?, havia uma câmera que ficava tão próxima ao seu rosto que só se via os olhos. Ele olhava para a lente e assim encarava o público através do telão, uma sensação de intimidade inédita. Aquele rosto ali mostrava o quanto ele é humano, exibindo com detalhes a expressão que faz quando canta, mostrando de perto seus olhos tortos, piscando devagar em êxtase no momento da canção. A platéia acompanhou novamente, cantando mais alto a cada vez que Thom Yorke pedia mais levantando os braços. Quando o último acorde foi tocado, O'Brien disse sorridente e satisfeito em bom português "Bom prha carhalho". O mesmo O'Brien é o responsável pala maioria daqueles back vocals ecoados, que parecem passar flutuando pela música.

A apresentação foi, além de um show do In Rainbows, uma boa amostra da obra do Radiohead. O In Rainbows foi executado na íntegra, mas hits de todos os outros seis álbuns estiveram presentes. Em Idioteque, do Kid A, a banda dançou freneticamente numa perfeita simbiose com o balé do público. Just, do The Bends, foi uma surpresa geral, por ser uma música que difere do que a banda vem fazendo atualmente. Na última parte do show, de repente se ouve numa voz feminina dizer algo como "a companhia das letras...", era o começo de The National Anthem. Para essa canção, o guitarrista Jonny Greenwood pegou trechos do que estava passando em algumas rádios locais ali na hora do show. A iluminação caótica casou com perfeição com a música. No meio da massa de vozes que era o coro da platéia, ouviu-se um par de "obrhigado" de Thom Yorke, numa tentativa simpática de falar a nossa língua.

Muita gente ali presente se perguntou o por quê da bandeira do Tibet estar distribuída em diversas partes do palco, mostrando mais uma maneira de ativismo do grupo. É que no dia do show do Radiohead, 93 monges tibetanos forem presos na China, após um protesto que eles faziam contra a prisão de um separatista.

A última canção do show, Creep, marcou um final apoteótico. Realmente enlouqueceu o público que gritava junto com Thom Yorke os versos do hit que quase nunca é visto nos shows da banda. A multidão e o Radiohead estavam lindamente sintonizados na mesma frequência.

oi, notou algo diferente?

Esse post é pra estrear meu novo visu. :) E não me digam que não notaram nada - até aceito ouvir isso quando corto 2cm do cabelo, vá lá, mas não agora!
beijosmeligatogata

er... an...

Olha, eu fiz inglês por seis anos, nesses, me formei, fiz conversação com minha queridíssima professora americana Tenney, tipo, eu sei inglês. Mas velho, eunãoentendoquasenadaquethomyorkecanta! Prontofalei.

I lost myse-e-elf



Ok, já faz quase 9 meses, uma gestação, que fui no show do Radiohead em Londres. Eu precisava de um empurrãozinho pra escrever sobre.

Hoje, às 22:30, vou ver a banda na praça da Apoteose aqui no Rio. Meu ingresso tá comprado desde o primeiro minuto da meia noite do dia 5 de dezembro do ano passado, quando abriram as vendas. Não, eu não me considero tiete. Acho que sou assim uma admiradora enfática do som deles, mas não fãzoca. Tá, eu fui pra Londres só pra ver o show deles, mas e daí? Podia ser minha única oportunidade na vida! ( e pra que todos me entendam, eu tava ali na Espanha, do ladinho do Reino Unido, e as passagens da Ryanair não saíam por mais de 30 euros)

Mas a vida é boa e eu tenho uma segunda oportunidade de ver o Radiohead. Tô muito curiosa sobre como vai ser por vários motivos: porque agora tô no Brasil, onde as pessoas são super enfáticas (viu que não sou só eu?) quando gostam de uma banda, porque os Loser vão tocar antes e quero ver se a tietagem do público vai se estender aos ingleses (será que teve losermaníaco que só comprou o ingresso pra ver os hermanos?), porque sim, somos mais calorosos, mas sim, também somos mais mal educados (com ou sem hífen?). E bem, é aqui que lembro da minha experiência no show londrino...

Eu fui a Londres sem expectativas em relação a cidade, só por causa do show mesmo. Aproximadamente 15 dias antes de viajar, me desesperei na casa de Leury, em Salamanca, quando vi que os ingressos estavam esgotados. Por fim encontrei esse cara, Guy, que tinha um ingresso pra vender. Depois de muitos emails, lá estava eu na porta do Hyde Park Inn hostel, um dia antes do show, esperando um estranho inglês. Ele era ótimo, un chico muy majo, se ofereceu pra me levar até o lugar do show no dia seguinte. Achei bom, porque tava meio nebuloso pra mim onde era o tal Victoria Park.

Exibir mapa ampliado
Encontrei meu buddy Guy perto da estação de metrô, ele me ofereceu uma cerveja de lata verde, holandesa, muito boa. Seguimos com a multidão pro parque. O dia tava lindo, um solzão agradável (eu fui muito sortuda, só peguei dias lindos em Londres), nos sentamos no gramado do lado de fora dos portões enquanto a banda de abertura tocava. Depois de uma horinha de papo divertido e algumas cervejas, tava na hora d'eu entrar. Me despedi de Guy (ele ia ver o show do Radiohead em Berlim, na semana seguinte, por isso tinha me vendido seu ingresso) e entrei, escondendo uma garrafa d'água no casaco pra que não fosse pro lixo quando me revistassem.

Fiquei zanzando, observando a área, imensa, e as pessoas que estavam ali. Cheguei até a frente, a uma distância do palco que acreditei ser segura o bastante pra uma mocinha sozinha e perto o bastante pra uma mocinha de 1,60m enxergar a banda. Tentei tirar umas fotos da minha cara de bobona segurando o canhoto do ingresso: todas foram um fracasso. Aí uma simpática australiana se ofereceu pra me fotografar e me contou que esse era o terceiro show, só dessa turnê, que ela via do Radiohead. A menina era meio doida mesmo (ou muito rica) e saía acompanhando os caras pra onde eles fossem.



Os ingleses tavam lá sentados no chão em rodinhas com suas cuadrillas (como chama em inglês? o.O) tomando umas muitas cervejas. E pã, de repente os caras entraram no palco, todo mundo levantou, eu nem acreditava que tava ali. Eram umas 9 da noite, mas o sol ainda tava forte, uma luz muito linda, e eles começaram a tocar.
A parte ruim de estar sozinha nessas situações é que você tem vontade de compartilhar, de ver que sua companhia está tão boquiaberta quanto você, e não pode. =/

Vi um Tom Yorke rechonchudinho e menos animado do que eu imaginava - assim meio paradão no palco, sem fazer tantas estripulias quanto as que eu havia visto em gravações de outros shows. Achei o som baixo (será o costume do som alto no Brasil? será a culpa dos trios?). Mas porra, era Radiohead.

Enquanto o show rolava, eu percebi que os ingleses eram mais educados e bêbados do que imaginava, fui pedindo excuse me, please aqui e ali e quando percebi estava quase na grade, na frentona. A parte boa de estar sozinha nessas situações é que você tem mais mobilidade.
O que pra mim era o momento da minha vida (hohoho, sim, eu sou enfática! :P), pros british ali presentes era só mais um show. - O que tem pra fazer nesse findi? Ah, show do Radiohead outra vez... Bebaços, eles cantavam mais com seus amiguinhos que com a banda.



Na metade do show, o sol de pôs (umas 10:30) e aí deu pra perceber melhor a tal iluminação de leds, bem legal. Quando o show acabou já era noite escura. A penúltima música que eles tocaram foi Karma Police, e no caminho pro metrô todo mundo repetia "And for a minut there, i lost myself, i lost myse-e-elf"... Eu realmente me perdi buscando a estação mais próxima, mas um educado moço da segurança do show me ajudou.

Então certo, cá estou eu do outro lado do oceano, ansiosa pra ver o que vai rolar hoje a noite. Se eu não ficar surda no show dos Loser e conseguir ouvir Radiohead, conto como foi.
Assim que chegar em Salvador complemento esse post com minhas fotos do palco e de cara-de-bunda.

Cheguei em Salvador e postei as fotos. Certo, elas não tão assim de lindas, mas poxa, foi minha experiência, tá? :P

Pequenas notícias da vida comum

Dalila deixa farmácia sem estoque
Na noite de ontem um cliente costumeiro da Farmácia Santana-Forte de São Pedro se revoltou ao não encontrar o medicamento que buscava. O farmacêutico declarou que "infelizmente não sobrou nenhum Vick. Até as Coristinas Dalila levou" e diante das reclamações indignadas do cliente completa: "tá pensando que carnaval é mole?".

Usuária de ônibus e cobrador discutem

Na última quarta-feria houve confusão em ônibus da linha Engenho Velho da Federação - Nazaré. Maria Amélia, que entrou no veículo já lotado, conta que se confudiu ao checar o troco que recebeu. O cobrador Horácio sentiu-se ofendido com a desconfiança e respondeu bruscamente às reclamações da usuária. "Quando eu vi já estávamos batendo boca e o ônibus todo olhava pra mim. Ele foi muito grosseiro e mal-educado". Horácio respondeu aos comentários sobre sua educação dizendo "e eu recebo educação? Ninguém é educado comigo, não! Nem boa tarde você me deu". Outros passageiros colocaram a culpa da situação no stress do dia a dia.

. . .... . .

Achei divertido o comentário que uma colega da disciplina de iluminação fez ontem - ela é mineira de Juiz de fora: Salvador fica engraçada com chuva... fica assim bagunçada.

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Agora de manhã fez um dia de chuva tão bonito que não resisti e fui fotografar - mesmo com centas coisas pra estudar me empurrando no assento dessa cadeira.
Fiquei na porta e na janela de casa.




























Pretensão zero das fotos serem bonitas ou sei lá. São só registro de cenas queridas.
Clicar nas fotos pra vê-las ampliadas.

Mistérios e Belezas do País Vasco

Publicado na coluna Satélite da revista Muito [jornal A Tarde] do dia 12 de outubro de 2008.



Texto e foto: Nina Neves (Labfoto)

O País Vasco, uma das 17 províncias da Espanha – a mais separatista delas –, está localizado no norte e tem paisagens naturais realmente bonitas. Entre os povoados de Bakio e Bermeo, na costa, estão as pequenas ilha e igreja de San Juan de Gaztelugatxe. Nesse caso, o difícil de acreditar é que se tenha construído uma igreja lá em cima: ela está ligada ao continente por uma estreita trilha com 230 degraus de pedra irregular. Em euskera, o primeiro idioma oficial do País Vasco, Gaztelugatxe quer dizer algo como castelo de pedra.

Para chegar até lá se pode ir de carro ou a pé. Fazer a caminhada beirando a estrada não é problema pois os motoristas costumam ser educados. O melhor caminho é sair de Bakio, que está só a 3 km, aproximadamente, da ilha de San Juan.

O sino da igreja pode ser tocado pelos visitantes e a suas badaladas atribuem-se poderes medicinais e mágicos – mas a verdade é que todo o lugar é encantador. Num canto, encontra-se um banheiro tão primitivo que os dejetos caem direto no mar, conduzidos pelo buraco no chão. Há também uma pequena casa equipada com churrasqueira, elemento que não pode faltar em qualquer bom passeio Vasco. Uma ótima idéia é subir com saco de dormir, vinho, violão e petiscos e passar a noite lá. Se for verão, ainda dá pra ir colhendo amoras pelo caminho e depois comer rezando.


Marcelo Camelo: ontem, dia 28, na Concha Acústica do TCA.



Foto: Álvaro Andrade

Eu fui pro show de Marcelo Camelo sem ter ouvido o cd dele (sou/nós). Antes de começar, discuti com meus amigos sobre quem seria o público, minha teoria era que seria o mesmo público dos Loser. Pois o show mal começou e deu pra entender tudo: as pessoas à minha volta sabiam as letras de cor. É bem o fanatismo fiel fidelíssimo típico.

Talvez por não conhecer as músicas, me mantive afastada o bastante pra observar outro tipo de coisa: a disposição dos músicos no palco era diferente, em semi-círculo com o banquinho de Camelo no centro; sem cenário, a luz amarelada compunha um espaço aconchegante pela cor quente; e tudo junto sugeria um clima mais intimista, mais sossegado. Por algumas vezes, o refletor de Camelo ficava apagado e colocava a banda Hurtmold em evidência.

A banda, por sinal, é fantástica, os caras tocam muito, mas é engraçado como os instrumentos de sopro dão um quê do 4 a uma música ou outra. Acredito é que Camelo continua fazendo um som losermanístico, enquanto Amarante despirocou na viagem rocker dele. Mas deixemos o ruivo de lado... O xilofone me chamou atenção, é vez por outra uma resposta doce à voz grave de Camelo.

E foi indo tudo muito bom, tudo muito bem, o público delirando em faixas como Solidão (em que mal se podia ouvir o assovio de tanta gritaria) e Liberdade – que o a baiano tanto abriu nessa noite –, mas foi quando Camelo resolveu tocar Morena que a Concha veio abaixo – e eu comecei a não gostar da história. Foi triste ver a Morena desacompanhada, sem a guitarra puladinha que dá ânimo. E pior ainda ouvir a platéia inteira atropelando Camelo, sem paciência de entrar na versão mais lenta que cabia ao voz-e-violão daquele momento. Aliás, essa impaciência do público era notável nas intros mais longas das músicas, ficava um clima tenso, de “começa logo a letra”. Aliás, eu acredito que o público de Los Hermanos vai aos shows muito mais pra ouvir sua própria voz, pra entrar nesse êxtase coletivo, sair febrilmente feliz porque Camelo ou Amarante disserem “vocês são foda”. E aí realmente não tem jeito, nego não canta junto, curtindo a voz do cara, nego berra.

Camelo ainda tocou mais três composições suas da época dos Loser. Pode ser um erro colocar no repertório músicas da banda já que ele está desenvolvendo um trabalho novo agora, ainda que parecido. A verdade é que o público não é necessariamente o mesmo, Marcelo Camelo sozinho pode abranger um público mais maduro e menos dançante, aí fiquei na dúvida se ele quer isso. E ele também delirou com o coro da platéia, disse coisas como “vocês me emocionam” e fez coração batendo por debaixo da camisa, mas não falou nada dos “uh, Los Hermanos” que pipocavam a todo tempo de um lado e outro da Concha. Considero essa mistura perigosa, ele pode correr o risco de não conseguir se desvincular da banda e ter uma carreira de fato solo.

Camelo fez o primeiro bis anunciado de que já tive notícia: pediu um tempo pra tomar uma cerveja e voltar. Ele é um fofo, as composições novas são deliciosas, mas não devia confiar muito nos gritinhos do público soteropolitano. Até agora não sei se a histeria pós A Outra foi pela felicidade em cantar uma letrinha tão conhecida ou por conta do pedacinho de barriga que Camelo se deixou mostrar ao levantar os braços em agradecimento.

Camelo não frustrou seu público cativo, aqueles que foram esperando ouvir Los Hermanos, no fundo, no fundo. Mas eu, que queria a novidade, saí insatisfeita pelas músicas repetidas e principalmente pela gritaria habitual. Ele podia ter fechado com um “eu (ainda) sou o que vocês são”.

Ouça Marcelo Camelo em: http://www.myspace.com/marcelocamelo



escrevi o texto abaixo na intenção de publicar na coluna Satélite, da revista Muito, mas como já tinha saído um com quase o mesmo tema, ele vem pra cá. :)


Cafés escondidos na Rambla
de Barcelona

Texto: Nina Neves  Fotos: Divulgação e Nina Neves (Labfoto)

Um passeio pela Rambla, uma das ruas de maior atração turística de Barcelona, pode guardar muito mais do que as já esperadas estátuas vivas e o monumento de homenagem a Colombo ao final. No último quarteirão, à esquerda, há um discreto portal que indica o Museu de Cera. Ao passar pelo corredor estreito, típico do bairro Gótico, chega-se ao pátio que dá entrada para o Museu e ao verdadeiro tesouro desse lugar: dois cafés.

O primeiro, Passatge del Temps, tem uma atmosfera completamente desligada da Rambla que está logo ali: é um lugar tranquilo, na penumbra, decorado com origamis gigantes, lustres raros, um quadro de borboletas e algumas estátuas de cera que se fazem de clientes. A idéia é sentar-se, perdendo-se nas dobras do tempo e dos origamis, tomar um café e "picar" um bocadillo de jamón (sanduíche pequeno com presunto curado). Para os que preferem doces, tem sempre cañas (rocambole de massa folhada) recheadas de creme e cobertas por raspas de amêndoas.

Passando para o salão seguinte, o visitante se vê num lugar ainda mais peculiar, o Bosc de les Fades. Como o nome sugere, é um cenário de conto de fadas. A luz baixa contribui com o clima de floresta criado por árvores, cachoeirinhas e seres mágicos. Quem passa muito tempo ali dentro, distraído pela sangria ou cerveja, pode acreditar que está mesmo numa gruta, onde crescem musgos e estalactites por todos os lados. Mas aproveitam mais os clientes que levantam dos bancos de madeira e exploram o lugar ou papeiam no balcão. Depois de algumas horas ali, ninguém vai estranhar se você sair sacudindo o pó de pilimpimpim da roupa.



PASSATGE DEL TEMPS /
EL BOSC DE LES FADES
Ptge. Banca, 5, Barcelona. Tel. 93 317 26 49
Horário de funcionamento: 10:00 a 01:00h.
Finais de semana até as 02:00 h.
METRÔ: L3 verde - Drassanes, saída Rambla
ÔNIBUS: 14 - 18 - 36 - 38 - 57 - 59 - 64 - 91

Hamam - o banho turco



11.06.2008_

Antes que as memórias comecem a se apagar eu preciso escrever, Não posso correr o risco de esperar a inspiração chegar.

Pois então, é que eu fui no banho turco, o Hamam, lá em Marrakech. Lahcen, nosso querido guia, nos explicou antes que o processo consistia em um lugar com várias saunas, umas 4, ligadas através de um corredor, a do fundo mais quente até chegar na da entrada, a mais fria. Ele nos falou da parte masculina, que é o que conhece: os meninos deveriam ficar de cueca, comprar um sabão artesanal e ir para a sala mais quente. A idéia é que os poros abram para que a pele morta saia através de um gomage - uma espécie de esfoliação - que alguém te faz.

Certo, tudo entendido, nos encontramos aqui fora em meia hora. E lá fomos nós pro lado das moças, nós 3, meninas ocidentais e ocidentalizadas. Eu estava confiando no meu francês tosco para fazer qualquer comunicação necessária - afinal ele tinha me servido bem nos dias anteriores.

Não poderia ter fotografado aquele ambiente porque as moças transitavam ali vestindo apenas calcinha e um elástico que prendia os cabelos, mas tentarei descrever. O ar era umidamente pesado por causa das saunas, os azuleijos da entrada eram azuis e cobriam as paredes até o teto, havia um balcão sem ninguém detrás, uma senhora muito velhinha e encurvada debulhava feijões verdes à minha esquerda (lembrando uma senhora que faz a mesma coisa no Garcia, perto do Bradesco). Logo adiante tinha outra velhinha detrás d'uma mesa baixa vendendo os sabonetes (a 2 dirhans* cada) e outras coisas que não identifiquei. Ela estava no limite entre o primeiro salão e uma outra sala menor, entendi que era ali onde as mulheres deixavam seus pertences e também se despiam e vestiam. Tinha bastante gente até, e era um lugar bem iluminado.

Eu fiquei meio atordoada nesse primeiro momento, tentando administrar tantas informações novas, tantos preconceitos querendo vir à tona, cheirando o ar para ver se algo me diria pra sair dali e ainda lidando com a responsabilidade pelas outras duas, já que eu era o canal de comunicação.

Não sei se nos pusemos caras de nojinho ocidental ou de surpresa, mas sei que causamos sensação, me senti muito gringa, todas nos olhavam. Tentei buscar com quem falar, a administradora do negócio, até entender que aquilo ali não era exatamente um negócio. Perguntei à velhinha dos feijões o que devíamos fazer ou algo parecido, ela não me entendeu bem, mas tentou responder, só que o francês dela me era incompreensível. Tentei o contato com outras: nada. O francês delas era árabe. Aí uma mocinha mais ou menos da nossa idade percebeu nossas caras de "como é que faz?" e veio nos ajudar. Explicou que a gente devia deixar nossas coisas ali naquela salinha, pegar um sabão e um balde e entrar; pagaríamos no final. Eu agradeci, ela se despediu. Tinha uma cara fresca e limpa, de quem acaba de tomar um banho dos bons. Já estava vestida, os cabelos molhados presos, saiu.

Deixamos nossas coisas juntas num vão da parede, pegamos nossos sabonetes - eles eram amarronzados, com cheiro daquele sabão de roupas amarelo e molinhos, deviam ter gordura animal... Antes de alcançarmos nossos baldes, veio de lá uma mulher (só de calcinha, como todas) e nos perguntou se queríamos o gomage, que isso só nos custaria 3 dirhans. Nos olhamos. Rapidamente trocamos informações, já não lembro se faladas ou só olhadas, e dissemos que não, obrigada, só queríamos o banho mesmo. Sim, a verdade é que a idéia de ter uma pessoa estranha, naquele lugar raro, nos esfregando o corpo não nos agradou muito. Agora eu vejo que fomos bobas, fresquinhas mesmo, que afinal de contas tanta gente paga muitíssimo mais que 3 dirhans por uma massagem. Mas naquele momento, na falta do guia, nos sentimos inseguras.

Pegamos nossos baldes e entramos no primeiro quarto, demoramos um tico pra entender o processo, que deveríamos ir até o final do corredor, para o quarto mais quente. As meninas não aguentaram o calor e paramos na penúltima sauna. Enchemos nossos baldes de água bem quente e tomamos banho com o sabão artesanal. A moça que o ofereceu o gomage me mandou tirar o sutiã, eu obedeci, claro. No chão dessa sala estavam umas três mulheres deitadas sobre suas esteiras sendo esfregadas vigorosamente por outras mulheres com uma buchinha. Pensamos aliviadas que realmente tinha sido melhor não optar pelo gomage, que já pensou, elas esfregam essas buchas em todo mundo...

E fomos seguindo pelas saunas até terminar nosso hamam. A sensação foi realmebte gostosa, mas me faltou a esfregação pra sentir a limpeza até a alma.

Enquanto nos vestíamos percebi que velhinha do sabão vendia também xampú, condicionador e... A bucha. A bucha não era reaproveitada, podíamos ter comprado as nossas. Como fez falta ter um guia ali!

Na saída, a moça que nos ofereceu o gomage se despediu e disse algo, meio em francês meio em árabe meio em gestual universal, como "vocês são uns pitéis!". hehe

Tomamos um suco de laranja (natural! hmmm) enquanto esperávamos os meninos. Eles saíram metidos com suas peles de pêssego. Me prometi que quando voltar no Marrocos faço um hamam completo.


*1 euro vale aproximadamente 11 dirhans.


Os meninos estão convidados a comentar a experiência deles, se quiserem, claro. :)

A foto que não tirei

03.05.2008_

Sentada no no assento azul do RER de Paris, na minha frente meu anfitrião, amigo de infância, do lado de fora um dia inacreditavelmente ensolarado. Olho pros bancos do outro lado do corredor e vejo uma moça muito bonita no ponto antípoda ao meu. Cabelos cuidadosamente cacheados, argolas grandes, ela fala distraidamente no celular.

Do outro vagão vem um cara esfarrapado, com sacolas plásticas penduradas nas mãos e nos braços e voz de choro, pára ao lado e atrás de onde está sentada a moça. Ele começa o discurso típico de pedintes, faz que limpa lágrimas, fala dos filhos que ninguém acredita que realmente tem.

A moça desliga o telefone e logo apita a chegada de uma mensagem. Eu enquadro os dois num quadro meio torto, mas que serve. Ela dá um sorrisinho de satisfação ao ler o que veio, o mendigo estende a mão. Faço click.

Passando a limpo sentimentos antigos de outro dia

30.04.2008_

Não me sinto pronta pra voltar ao european way of life. Fico querendo me vestir de Marrocos (ou Marrakech) pra ver se volto no tempo, fico querendo não sentir os cheiros daqui, não ver as caras bascas, busco um grãozinho de areia em algum canto do meu corpo e roupas.
Essa sensação de não pertencimento aos lugares em que estou já é velha conhecida. Mas lá no deserto, um lugar tão grande, tão especial, onde não vi bandeiras e cercas fincadas*, me senti dele e ele meu.
O deserto não é deserto. Com o passar das horas aprendi a reconhecer os donos das pegadas na areia, a ter a areia como parte de mim, a tornar meu coração cheio de deserto.

* Esse sentimento veio na ignorância do conflito pelas terras do deserto, mas é justificável, porque a falta de limites e marcas visíveis naquele território dá uma sensação de liberdade que é real, muito real.

Da volta Marrocos - Espanha


29.04.2008_

Ouvindo a conversa de duas pessoas no ônibus de volta a Bilbao (do caminho Tanger - Madrid, Madrid - Bilbao): o cara faz algum trâmite de documentos para africanos, a mulher fala de uma associação em Sevilla, chamada Acoge, acho. Coincidência que depois de atravessar o estreito meu tema continue na África...

A moça loira ao meu lado é bilbaína, mas vive em Ceuta (cidade espanhola em território marroquino). Trabalha voluntariamente em uma associação lá para arrecadação de fundos destinados a todo Marrocos. Depois de eu conseguir superar a curiosidade passiva e fazer um primeiro contato, ela me diz que existem centros que acolhem crianças marroquinas em toda Espanha, mas em Ceuta e em Melilla (outra cidade espanhola também em território marroquino) não, então sua associação busca isso.

A moça loira com calça marroquina me explica que o Sahara era propriedade espanhola durante a ditadura franquista. Franco, praticamente já em leito de morte, resolveu "regalar" o Sahara ao Marrocos, o problema é que na parte sul do deserto viviam os que aqui chamam sauharis - o que chamaríamos saharianos em português, creio - e logo começou uma guerra pela posse das terras. Grande parte dos sauharis morreu, quem sobrou se refugiou na Argélia. Hoje esses refugiados de guerra vivem dependentes de ajuda humanitária.

Minha companheira loira, que aqui se chama Maite (um nome basco para dizer carinho, ou algo do gênero) e lá se chama Maria - e prefere ser essa, crê que a Espanha deveria ajudar mais o Marrocos porque "estamos tão perto e essa confusão é um pouco nossa resonponsabilidade".

Penso até que ponto esse tipo de sentimento de culpa move os espanhóis a "adotar" crianças africanas para férias, situação que sempre costuma acontecer por aqui, pelo que já soube. A Acoge, que acreditei ter ouvido quando comecei a prestar atenção na conversa de Maite-Maria, deve ser uma das instituições que promove esse tipo de ajuda às famílias africanas. Fica aqui a promessa de procurar saber como se dá esse tipo de processo.

Estivemos poucos dias no Marrocos, em poucos lugares - quero dizer que tenho poucas referências, mas, de tudo que vi, não tive motivos pra sair de lá com pena daquele povo, não mesmo. Existe muita pobreza, mas nada que me chocasse de verdade. Pelo caminho do trem de Casablanca a Marrakech vi cidades muito pobres, ruas descalçadas e meninos descalços jogando bola na poeira do barro como em qualquer cidade do interior da Bahia. Tirando a tapeçaria vez por outra pendurada nas janelas, uns mosaicos e telhados diferentes, poderia ser Jequié ou bairros altos de Conquista. E vejam bem que pelo menos eu estava num trem! Há linhas de trem cortando o Marrocos de cima a baixo. O único trem que já estive na Bahia foi o Calçada-Paripe em Salvador, sabemos que suas condições são realmente ruins.

O contraste mais evidente que vi foi o dos telhados: baixinhos, estão quarados de antenas parabólicas e, a la vez, pedras segurando as bordas das telhas de eternit. Mas, bem, as pessoas com quem tive contato me pareceram felizes, na medida do possível, felizes. O sorriso vem fácil, vêm olhares envergonhados, curiosos, mas humanos, tão humanos como não vejo nas ruas de Bilbao, em que as pessoas passam, não se olham, não se tocam, não se falam. Lá senti que não hacía falta falar, era bastante olhar e ver que tinha gente ali.



Foto modificada a pedido de meu pai.

Mais fotos em: http://picasaweb.google.com/ninaneves/Marrocos

Uma madrugada, o mesmo trem

05.04.2008_ Num dia de solidão doída.

Nesse trem - e nunca pensei que começaria uma frase assim - das 2 e pouca da madrugada, tenho como maior companhia minha respiração. Sobe e desce em minha barriga, chacoalha no embalo dos trilhos e diz, insiste em dizer, que sou só eu. Muito ruído alheio, isso sim. Várias conversas em castelhano, em castelhano bêbado cantado, num dialeto africano calado na boca do negão antes sentado ao meu lado.

Entram umas meninas muito borrachas, muito ruidosas, muito cantantes, cheias de olés tão deslocados nesse País Vasco. Reafirmam minha solidão. Em suas palavras , seus barulhos e batidas de botas no chão fazem trocas, cantam em coro, estão acompanhadas. Eu sem o quê ou o quem da companhia ideal (que nunca conhecerei, posto que é ideal), tenho apenas a essas letras tortas e esse ouvido atento. Um chocolate num bolso, o celular, possível antena pro meu outro mundo, no outro. A moça do Renfe fala depois do tututututu e as moças do acento ao lado me olham. Sinto a solidão aumentar, sinto a vontade martelante de estar em minha casa que é já não sei onde. Em minha cama que é qualquer lugar de abrigo.

Pipipipipi. Meus ouvidos querem escutar Santurce, que a estas horas quer dizer descanso, quer dizer sono e companhia dos sonhos, solidão em paz.

As chaves se precipitam para fora do bolso da mochila.

A parte que falta

02.04.2008_

E depois de uma viagem tão boa, com amigos tão queridos, por lugares tão bonitos, eu volto à rotina com a sensação de que algo me falta. Aquele sentimento de coisa nova que deve vir depois dessas experiências ficou grudado e escondido na fresta de algum muro branco das casas de Granada. Eu busquei ele lá e busco agora em minhas memórias.

Em Santiago me ensinaram que escorpianos, como eu, querem tudo em suas profundezas, que não é na superfície que satisfazemos nossas ansiedades. Acho que assim começo a entender as frustrações que sinto depois das viagens.

Ir a lugares bonitos, famosos, é legal sim, mas não parece valer completamente se não acontece uma situação nossa, minha, que outra pessoa que visitou o mesmo lugar não pode contar. Não tem graça se não faz um cleck dentro de mim, se não tenho um momento pqp.

Ficar no raso do turismo me chateia, me parece vazio demais. Claro que não invalida os momentos divertidos que tivemos como grupo (ou trio, no caso :), o sublime das construções e vistas, mas falta o meu, a mudança que o lugar deve provocar em mim. Talvez tenha me faltado conversar mais com as pessoas, essa parte humana, o diálogo que os muros, portas e passagens da Alhambra não podem me dar. É que quando há troca de palavras e nos reconhecemos ou desconhecemos no outro, nos conhecemos também. Eu acho que pode ser assim minha explicação.

De qualquer maneira, acredito que o cleck ainda pode vir depois, em minhas lembranças da viagem, como aconteceu mais ou menos com Paris. Ou talvez eu esteja querendo demais em encontrar a luz sem ter feito o caminho de santiago com meus amigos. :P

Em Bilbao

Pra localizar nossas pessoas queridas na cidade em que estamos vivendo, Edivaldo se deu ao trabalho de montar uma panorâmica feita de cima do parque Etxebarria.




Cliquem na imagem pra vê-la em tamanho grande. :)